sábado, 1 de maio de 2010

Sobre cores e coloridos.

Howdy meu povo, finalmente um novo post de opinião, a verdade é que eu tinha um monte de contos que eu parei no meio e me deu preguiça de continuar. (Queria ler mais? Reza pra algum dia sair um livro meu.)

Vamos falar de um assunto bem legal: O recente acréscimo cromático que a música popular vem sofrendo, vulgo, os coloridos do rock.
Eu nasci em 92, então não cheguei a ver muitas das melhores bandas do mundo em seu apogeu, mas por sorte eu me tornei uma pessoa de bom gosto o suficiente pra aprender a apreciá-las.
Recentemente tem havido o surgimento da coisa mais escrota dos últimos tempos: O "Rock" Colorido. (Usei as aspas porque nem fodendo aquela porra é rock.)
Para quem não sabe o que é, imagina a tosquice do fresno ou do nx zero se fundindo com os power rangers, ursinhos carinhosos ou teletubbies; Pronto! Você tem uma banda de coloridos, que não são mais do que emos policromáticos e mais dançantes.
Eu não cheguei a crescer com os grandes medalhões do rock que eu idolatro (Fuck, O Kurt Cobain morreu quando eu tinha dois anos), mas eu aprendi por experiência própria a apreciar a música bem feita, não digo estruturalmente, já que o punk por exemplo nunca foi um estilo virtuoso, mas bem feita no sentido de conteúdo. Os músicos antigamente tinham uma mensagem a passar, algo de importante a dizer, coisa que parece que sumiu, não excluo que os músicos mais antigos queriam ganhar dinheiro, mas acima disso, havia um comprometimento com a qualidade do trabalho, coisa que foi erradicada, hoje em dia basta fazer sucesso, foda-se se uma geração inteira vai ser tão estúpida quanto um ovo cozido, nós queremos é o dinheiro.

E o pior é a molecada realmente achar que a música é boa, defender o gosto e tudo, dizer que quem critica está "com inveja do sucesso do Cine/Restart/Qualquer-banda-ridícula-que-é-resultado-de-falta-de-surra-quando-era-pequeno.". Primeiramente pivetaiada pão-com-ovo que gosta dessas bandas purpurina&gliter, sucesso não é igual a talento, vide parangolê, calypso e todo o resto das porras que abundam pelo mercado fonográfico brasileiro e/ou mundial; segundamente, não é inveja, é tipo quando você vê um jogador muito ruim jogando no seu time do coração, o rock é o nosso time e vocês, emos/coloridos/qualquer-coisa-que-não-sabe-ser-gay-com-dignidade, são o pior jogador que a humanidade já viu, até surgir uma modinha pior que vocês.



Pelo menos eu cresci vendo bandas como The Killers. The Strokes, Artic Monkeys, fazerem sucesso, elas não são do nível de Stones, Motörhead, The Clash ou The Who, mas com certeza representam o objetivo do rock.

O que nos traz outro ponto importante: O Objetivo do Rock.
Qual o objetivo do rock? Bom vamos ver:
"O Rock and Roll é a marcha marcial de todos os delinqüentes juvenis sobre a face da Terra." Frank Sinatra
O Rock é sobre revolta, sobre romper com a sociedade e os valores vigentes, sobre rebelião e insatisfação. Qual é a revolta dessas bandinhas coloridas? Sobre haverem roupas que os homens não podem usar (tipo calcinhas)? Revolta contra "este mundo monocromático, frio e cruel" (de cu é rola)? Sinto muito coloritubbies, nunca serão.

A própria história mostra quem vai ficar e quem vai ser esquecido, Stones lota estádios onde vai, Iron Maiden foi considerada a melhor banda ao vivo DA HISTÓRIA, qual foi a contribuição dos emos? A aceitação da sociedade ao bissexualismo entre grupos de pré-adolescentes? E a dos coloridos? A descoberta de novas combinações de cores pras pessoas usarem as roupas? É, o rock não morreu, mas tem alguns infelizes que não desistiram.

Deixo vocês com uma reflexão:

Bom uso das cores.



Mal uso das cores.


I love it loud. o/

domingo, 7 de fevereiro de 2010

A hard rain's a-gonna fall. - Parte 2 -

Acordo com o celular tocando, mas não estou afim de atender, noite bem dormida dessa vez, cortesia dos bons e velhos amigos: Johnnie, Jack, e Jim, os únicos amigos pra qualquer hora, a dor de cabeça agora é até um preço pequeno a pagar, e nada cura melhor uma ressaca do que beber de novo; Levanto e caminho até o banheiro, tomo banho, e escovo os dentes, me visto e saio.
Caminhando pela rua, vejo quem me ligou: Axys. Ligo pra ele de volta, e a voz fina e tremida atende do outro lado.
- Porque não atendeu antes Russel? - ele reclama.
- Porque a porca gorda da sua mãe estava por cima e eu não consegui alcançar o celular, filhão, a propósito você vai ganhar um irmãozinho.
- Anda pegando porcas gordas agora, Jack? - ele dá um risinho. - Que seja, passe aqui, achei o que você queria, e agora quero meu pagamento.
- Vou depois que tomar café, Axyl. Sempre o bacon em primeiro lugar. - desligo.

Chego na loja de penhores do Axyl uma hora mais tarde, parei antes e fiz umas apostas no jogo do Liverpool, se o plano der errado e eu morrer, pelo menos não vou precisar pagar, abro a porta e vou até atrás do balcão, Axyl está esperando do lado de dentro.
- Senhor, não pode entrar aí. - o balconista começa, garoto novo, mas hoje não acordei bem, minha cabeça está latejando, provavelmente não bebi o suficiente de manhã.
- Volte pra porra do balcão, você não me viu aqui. - falo lentamente, minha voz soa anti-natural, estranha, ele se vira e obedece sem uma palavra, entro na parte de trás da loja.
- Gastando magia com balconistas, Russel? Ele tinha instruções para te trazer para cá, era só se identificar. - Axyl me cumprimenta rindo.
- Foda-se Axyl, o que tem para mim?
Ele me joga um papel com um nome e um endereço rabiscados apressadamente.
- Aí está, o que você me pediu.
Entrego para ele a página do grimório, e começo a ler o endereço.
- Porque a letra está tão ruim Axyl?
- Digamos que eu tive que ser persuasivo. - Ele sorri mostrando os dentes pontudos.
- Você me dá nojo.
- Você fala como se fossemos muito diferentes, não Jack.
Me levanto e vou saindo, quando me viro e digo:
- Lave esse rabo nojento Axyl, você está fedendo a enxofre.
- Háháhá, você é hilário Russel.
Apago o cigarro na antiguidade que parece mais cara por ali e vou embora ouvindo ele me xingar.

Subo no táxi e sigo em direção ao endereço que recebi,de repente eu consegui avançar uma base, faltam duas.
- Obrigado, fique com o troco. - pago o taxista e me vejo em frente a uma casa que aluga quartos, a casa é velha e um pouco mal-cuidada mas parece aconchegante. Acendo um cigarro e toco a campainha, uma senhora idosa atende.
- O que deseja senhor?
- Procuro um velho amigo, o padre Artur Baldwin, a senhora o conhece?
O rosto severo da senhora se abre num sorriso sincero quando ela reconhece o nome.
- O padre Arty? Oh meu bem, ele saiu mas deve voltar logo, vamos, entre, saia do frio, pode esperá-lo aqui dentro.
Sorrio e entro, tirando o sobretudo e pendurando-o no cabide ao lado da porta, vou até a cozinha onde a velha senhora lavava a louça e assava um bolo.
- Quer dizer que é amigo de Arty? De onde se conhecem? - pergunta ela animada enquanto me serve uma xícara de café.
- Fomos ao seminário juntos, mas fazem muitos anos que não o vejo desde aquela época.
Ela sorri mais ao ouvir isso e me serve um pedaço de um bolo que repousava na pia.
- E qual o seu nome, padre?
- Padre Jack Russel, senhora. - respondo sorrindo enquanto meu estômago da cambalhotas.
- Prazer padre, sou Amelia Johnson, mas pode me chamar de Amy. Como ficou sabendo onde padre Arty estava hospedado?
- Com alguns amigos dele da igreja, eles me disseram isso. - quando Amy se vira, eu batizo o café com whisky.
- Ele é tão bom não é? Ele me disse que não fica numa das acomodações da igreja porque não gosta de se isolar das pessoas, ele diz que um bom pastor vive junto do rebanho. - ela sorri com os olhos brilhando, tenho que admitir que esse cara é bom.
A sineta da porta se abrindo me salva de mais dessa lambição de saco pra cima desse cretino, ela sorri ao ouvir o barulho e diz:
- Deve ser ele, vou chamá-lo para o senhor.
Escuto passos e em seguida um homem que deve ter seus quarenta e cinco anos, com início de cálvice e uma leve barriga entra na cozinha, ele me olha assustado.
- Arty, seu bode velho, lembra de mim? Jack! - ofereço um sorriso, mas meu olhar deixa bem claro que não vim fazer amizade e que é bom ele entrar na dança.
- Jacko! Que saudade! - ele se adianta e aperta minha mão, então me olha sério. - Temos muito que conversar, Amy, por favor não nos incomode, e me leva até seu quarto.
Ao entrar ele fecha a porta tranquilamente e a tranca, depois se senta na cama e põe as mãos sobre o rosto.
- Está bem, - ele diz - eu sabia que isso ia me morder o calcanhar mais cedo ou mais tarde, então, - ele se vira para mim - qual o tamanho da encrenca, vocês vão me processar por denegrir o nome da igreja?
- Relaxe rapaz, sou tão padre quanto você, - eu falo acendendo um cigarro - mas você acertou metade, há uma encrenca, e ela é tão grande que provavelmente daria para ter uma conferência da ONU em cima dela.
Ele me olhou apavorado e começou a suar frio, escondeu o rosto nas mãos e engasgou.
- Você veio por causa das aparições?
Sorri ao ver a cara de desespero dele e disse:
- Sim, vim por causa delas, você acabou de confirmar minhas suspeitas, você tem idéia do que fez?
- Agora eu tenho - ele balbuciou.
- Agora é tarde, pessoas morreram por sua causa, eu nem devia estar aqui, devia deixar você enlouquecer e morrer, mas morrer é uma coisa muito gentil pra você. Vou te salvar, se você concordar em pagar o preço.
- Eu concordo, eu concordo, o que quer que seja eu concordo, só me diga o que fazer. - ele agarra meu paletó desesperado, os olhos já começaram a ficar desvairados, se eu tivesse demorado um pouco mais não haveria o que salvar.
- Muito bem, - eu sorrio - mas não se esqueça dessa promessa. Encontre-me hoje a noite, neste endereço. - rabisco um local num pedaço de papel e o entrego.
- Mas não se esqueça que você irá pagar pela merda que você fez.
Ele assente com a cabeça em silêncio, eu me viro e vou embora.
No Hall de entrada Amy me vê saindo.
- Já vai padre Jack?
- Sim querida, minha paróquia é longe daqui, só vim ver Arty e já vou embora.
- Entendo, volte quando puder, sim?
- Prometo que volto. - eu sorrio e aceno um adeus, saindo para a rua, está caindo um aguaceiro de novo, mas vou andando hoje, preciso pensar...
- I'm a-goin' back out 'fore the rain starts a-fallin'... Mr. Dylan sabia o que estava falando...

Bom, tudo que eu pensava estava se provando certo, e era hora de me preparar, cheguei em casa encharcado e tomei um banho quente, me vesti e acendi um cigarro, bebi meia garrafa de scotch, peguei o que eu ia precisar e sai.

Uma hora depois me encontro com o pobre e apavorado falso padre numa área de construção, ele treme dos pés à cabeça no seu casaco de lã, ele ainda usa a estola e o crucifixo, e têm nas mãos uma bíblia.
- Olá padre. - cumprimento-o com um aceno de cabeça.
- Como pode estar tão tranquilo? - ele me pergunta apavorado.
- Porque eu não sou você. - respondo com um sorrisinho, acendendo um cigarro.
Tiro um giz avermelhado do bolso e desenho um círculo com vários símbolos dentro, o círculo não ficou perfeito, mas vai servir, mando ele pisar no centro e ele pisa tremendo, me afasto e sorrio para ele.
- O que é isso? - ele pergunta apavorado.
- Só confie em mim. - eu sorrio. - Não é como se você tivesse escolha mesmo certo?
Ele range os dentes, eu puxo um pergaminho velho de um bolso do sobretudo e começo a recitar as palavras escritas ali.
- Repita as três últimas palavras depois de mim: Ash nâzg thrakatûluk.
Ele repete com a voz trêmula, e o círculo de giz brilha com uma luz vermelha que se estreita até circundar apenas o pobre coitado., um barulho alto é ouvido nas trevas ao nosso redor e o cara quase começa a chorar.
- É por isso que eu adoro meu trabalho. - sorrio. - Àqueles que caminham na sombra sem fim, revelem-se!

Uma luz sobrenatural faz aparecer os causadores daquele barulho, são todas as quatro pessoas para as quais ele deu a extrema-unção. Elas parecem levemente translúcidas, mas ao mesmo tempo sólidas, elas não são fantasmas, são rancor, eu sorrio e rilho os dentes.
O falso padre se apavora e corre pra longe, saindo do círculo, bastardo desgraçado, era o que eu precisava, mais uma pessoa pra me preocupar, porque ele não pode ficar no círculo de proteção? Corro atrás dele para salvá-lo e tento empurrar uma das formas de rancor, ela me afasta com um safanão me fazendo voar cinco metros.
Eu aterrisso com um baque dolorido, me sento no mesmo lugar que cai e procuro a garrafa e os cigarros... Perdi, e meu terno está todo amarrotado... É por isso que eu odeio meu trabalho!
O coitado está cercado pelas formas de rancor e só consegue implorar perdão em gritos estrangulados, não vou negar que ele mereça isso, mas não está em minha posição julgar... Por enquanto. Me levanto e pego o isqueiro no meu bolso, acendo ele e faço dois círculos ao redor de mim, as chamas crepitam no ar me circundando, vão ter que servir.
Corro até o lugar em que ele está cercado e me atiro contra uma das formas de rancor, ela solta um grito rasgado e eu passo por ela, ficando com o padre cercado por aquelas coisas nojentas, faço os círculos de fogo circundarem ao padre e me viro para ele.
- Tem um cigarro aí?
Ele me olha espantado e grita:
- Um cigarro, olha o tamanho da merda em que a gente tá e você quer um cigarro??
- Bom, um grimório também ia ajudar, mas você não anda com um, e eu menos. E o cigarro? - sorrio.
Ele dá de ombros e me entrega o cigarro, eu acendo e viro pras formas de rancor:
- Já sei do que vocês precisam, calminha rapazes, vocês já vão conseguir!
Tiro um pequeno frasco de um dos bolsos do casaco, pelo menos ele eu não perdi quando brincaram de lançar o Russel.
- Você vai beber agora? E eu confiei em você! - o padre reclama.
- Muita gente comete esse erro. - sorrio e jogo o conteúdo do frasco nas formas de rancor, o lugar onde elas são atingidas começa a brilhar e elas soltam um grito estrangulado de ódio, uma delas estende a mão pra mim e me toca no peito, uma dor fria e perfurante corre pelo meu corpo, eu me contorço, com a mão que está livre eu alcanço no meu bolso uma estola e a enrolo no braço, então mergulho ela num dos círculos de chamas que circundam o farsante, a estola pega fogo com uma luz dourada e eu a uso para afastar as formas de rancor, que ganem ao toque daquelas chamas, sem poder parar para respirar, termino de ungir as formas de rancor, e juntando o que me resta de resistência, digo bem alto:
- Por esta santa unção e por sua grande misericórdia, Deus te perdoe tudo que fizeste de mal. - Está feito, agora é torcer para o talvez do padre e meu palpite estarem certos...
Caio de joelhos, ofegante e vejo uma das formas de rancor estender a mão para mim, pelo visto eu estava errado, que jeito idiota de morrer, salvando um padre de mentira... começo a rir incontrolavelmente, a forma de rancor se aproxima e eu não consigo parar, é irônico demais, ela estende seu braço para me tocar, e de repente explode num brilho branco, desaparecendo com um urro gutural.
O susto me faz parar de rir, me levanto e vou procurar meus cigarros e meu frasco de whisky, acendo um cigarro e volto até o padre, ele me olha nos olhos e balbucia.
- Muito obrigado senhor, muito obrigado mesmo, o senhor salvou minha vida e minha sanidade, eu lhe devo tudo...
- Epa, eu tenho um preço padre, lembre-se disso, você vai me xingar antes do fim do dia...
- Não importa, eu pago, não interessa o que seja.
- É mesmo? Bom saber. - eu sorrio. - Losfers! - eu estralo os dedos, de repente muitas pessoas translúcidas aparecem diante do padre.
- O que é isso? - ele exclama apavorado.
- Eu disse para você ter calma padre, esse é o meu preço, pessoas morreram por sua causa, agora você vai carregar nas costas a vida delas.
- O que? O que quer dizer com isso?
- Todos temos crimes, e todos pagamos por isso, esse é o pagamento que você vai fazer.
- E você, Jack Russel? Não tem crimes? Não paga? Em que posição você acha que está para julgar os outros?
Eu sorrio, e olho para o céu antes de responder:
- Na posição de maior criminoso dentre todos que já conheci...
- Você só pode estar brincando. - ele me diz descrente.
- Eu não brinco em serviço padre.
- Mas você brincou o tempo todo!
- É... Bom... Eu não trabalho também. - sorrio
Ele me olha com desconfiança e diz:
- Não vai dizer mais nada?
Jogo a bituca de cigarro no chão e olho para ele:
- Sabe se o Liverpool ganhou o jogo? - Sorrio ironicamente.

O padre foi embora, naquele mesmo dia, antes de eu poder ir falar com ele de novo, ele fez as malas e sumiu no mundo sem nem dizer para ninguém para onde iria...
- Não sabe se ele volta? Ou pra onde foi?
- Não sei, sinto muito Amy, algo muito sério deve ter acontecido.
- Espero que ele esteja bem... - a pobre senhora está mesmo triste.
"Ele nunca estará" - Eu também espero Amy.
- Obrigada por vir, padre Russel, não vai entrar mesmo?
- Não, estava só de passagem, adeus Amy.
- Adeus padre, bom dia.
Olho para o céu de novo, acendo um cigarro e sorrio ironicamente quando um pingo de chuva me atinge no rosto.
- É, uma chuva pesada vai cair...
Vou embora, caminhando pelas ruas cinzentas e melancólicas de minha amada Londres.

quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

Envelhecer é uma coisa injusta.

É meu povo, pros poucos que lêem esse blog(e nem sequer se importam em comentar), recentemente me dei conta de que envelhecer é uma coisa injusta, e todo mundo vai concordar quando eu falar aqui o porquê.

Há 15 anos atrás, quando eu fazia bolhas de saliva com a boca, só ouvia coisas do tipo: "Ah, olha que belezinha".
se eu faço isso agora, escuto coisas do tipo: "Olha o retardado ali."

Quando eu tinha 5 anos, se eu saia correndo e pulava na piscininha, todo mundo achava legal, se eu faço isso agora que tenho 18 anos, o salva-vidas me olha feio.

Quando eu era pequeno e fazia xixi na cama, meu pai me abraçava, falava que acontece e tirava o lençol pra lavar.
Se isso acontece agora, meu pai me olha, diz que eu preciso de um psicólogo e eu que me vire pra lavar o lençol.

Esses são alguns exemplos de porque envelhecer é injusto, se alguém tiver mais, poste aqui nos comentários

quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

A hard rain's a-gonna fall - Parte 1 -

Eu acendo o cigarro e olho pela vitrine do restaurante, são oito da manhã de mais uma maldita noite mal dormida, a garçonete de meia-idade me serve mais uma xícara de café enquanto sorri com os dentes tortos sujos de nicotina, e eu finjo não notar olhando pelo vidro empoeirado com o letreiro EARL'S até que ela vá embora; bom, pelo menos eu ainda tenho bacon.
Eu tomo um gole da xícara de café e olho de novo a primeira página do jornal, "MAIS TRÊS SE MATAM APÓS ENTERRAR ENTE QUERIDO.", é essa maldita matéria que tem me feito dormir mal já há quatro noites... não que eu dormisse bem antes, mas de qualquer jeito... Tem algo acontecendo aqui, eu sei, chame de instinto, de sexto sentido, da porra que você quiser, eu chamo de "uma sensação de que algum bastardo está se metendo onde não devia", e eu tenho andado a noite pelo cemitério onde os fulanos e suas famílias de kamikazes foram enterrados tentando descobrir algo já há quase uma semana e nada, nessas horas queria que os classificados anunciassem esse tipo de merda: "Fantasma de Estuprador atacando na rua 34", ou qualquer droga desse tipo...
- ...nhor? Senhor?
Um garoto interrompe minha linha de pensamentos, bom, tanto faz, eu só ia ficar amaldiçoando algo ou alguém mesmo.
- O que é garoto? - Pergunto tirando os olhos do jornal.
Ele me olha apreensivo, parece desconcertado, tem uma garota da mesma idade olhando pra ele do balcão, namorados, devem ter vindo tomar café juntos, ele abaixa os olhos e respira fundo antes de dizer:
- Senhor, podia apagar o cigarro por favor? Eu e minha namorada somos contra o mal que o cigarro faz, e o senhor está nos tornando fumantes passivos.
- Isso não é um cigarro garoto, é só uma ilusão, assim como todo esse restaurante, agora, se você fechar os olhos e se concentrar e sair correndo por aquela porta enquanto conta até trinta, eu garanto que todas as ilusões terão ido embora. - eu sorrio - Que tal se você tentasse isso?
O garoto se vira e sai, provavelmente pensando muitos xingamentos de mim, "inglês maldito!" e variantes, bom, tanto faz, acho que a única pessoa que se incomoda quando xingam os ingleses é a rainha, e eu não sou rico o suficiente, velho o suficiente ou inglês o suficiente, portanto eu não sou a rainha, na verdade eu também não gosto muito de ingleses.
Eu me viro e volto a ler aquela manchete, quando meu celular toca:
- Jack? Está aí? Jack?
É o reverendo Simmons, ele nunca é uma pessoa divertida, e menos ainda quando está falando ao telefone.
- Estou, reverendo, manda ver. - falo enquanto apago o cigarro.
- Tenho algo pra você Jack, algo que você vai gostar.- Ele faz uma pausa dramática, esses reverendos e padres nunca perdem a chance de fazer drama, até numa conversa de telefone. - Um dos familiares suicidas se deu mal...
- Ele morreu! Grande piada padre, precisava me ligar para contar ela, podia ter guardado até eu passar aí um dia desses. - respondo impaciente.
- Não, Russel, seu cretino, ele não conseguiu se matar ele está no Hospital de Misericórdia, quarto 32 se quiser saber, já que estava investigando resolvi avisá-lo, mas isso não me cheira bem, tome cuidado Jack.
- Você fala como se não me conhecesse, reverendo. - digo sorrindo.
- Pelo contrário, falo assim porque te conheço Jack. - ele desliga.
Levanto e saio do restaurante, enquanto acendo outro cigarro um mendigo se aproxima de mim:
- Me dá um trocado pra poder comprar alguma bebida e me esquentar irmão, o tempo parece que vai virar e esfriar logo logo.
Olho para o céu dando uma tragada no meu cigarro depois me viro para o mendigo: Ele costumava ser um comerciante que vivia bem, mas um incêndio lhe tomou tudo e ele nunca conseguiu se reerguer. Tiro uma nota de cinco dólares do bolso e lhe entrego dizendo:
- Tome, beba uma dose em meu nome, sim?
Ele se afasta enquanto o olho indo embora, todo mundo odeia viver na decadência, começo a andar em direção ao hospital quando vejo meu reflexo numa poça d'água no chão... Bom, nem todo mundo...
- É parece que vai chover... - murmuro.

Chego ao Hospital de Misericórdia e apago o cigarro, aqui um pouco de ironia não vai ajudar quando alguém reclamar do fumo. Tiro minha garrafa do bolso interno do sobretudo e dou um gole longo, sempre detestei hospitais, guardo a garrafa e entro.
Logo na entrada, sou surpreendido por alguns enfermeiros correndo com uma maca em que uma mulher de aproximadamente trinta anos se contorce convulsivamente, nos bancos de espera um garoto de no máximo dez anos segura o braço esquerdo quebrado, e uma ponta de osso sai da sua pele no meio do antebraço, passando pelo corredor térreo eu vejo um senhor de cinquenta anos vomitar sangue no chão ao lado da maca... Acho que é por isso que o nome do hospital fica só do lado de fora.
Chegando ao quarto 32, bato na porta, abro antes que alguém possa me proibir, e entro com um sorriso pacificador.
- Olá senhor, sou o Dr. Jack Russel, psicólogo do hospital, vim aqui ver como o senhor está.
- Jack Russel? O outro doutor tinha um nome diferente. - ele diz surpreso.
- Eu entendo, mas eu sou designado para casos mais dramáticos, e meu colega achou por bem me indicar para tratá-lo. - puxei um cigarro - Não se importa de eu fumar não é?
- Ah... Eu realmente acho que o senhor não deveria... - ele começa.
- Que bom. - acendo o cigarro e o olho nos olhos. - Então, por que decidiu puxar a tomada mais cedo?
- O senhor não vai acreditar se eu contar...
- Me teste, estou ganhando pra isso mesmo. - "besteira, mas ele não precisa saber."
- Bom após o enterro, durante umas duas semanas, meu tio aparecia pra mim, me amaldiçoando e me xingando.
- E o que ele dizia exatamente?
O homem me olhou nos olhos para ver se eu acredito, ele próprio não parece acreditar no que diz, mas eu acredito, como não poderia? Esse tipo de merda me segue a minha vida inteira, acho que é como dizem, todos temos um fardo pra carregar, e o meu é cheio de malditas agulhas.
O homem balbucia, engasga e enfim diz:
- Ele dizia que eu o havia condenado, que sua alma agora ia vagar por minha causa, e por isso ele ia se vingar de mim; Ele me atormentava todas as noites, não me deixava dormir, se lembrava de cada lembrança que eu tenho e gostaria de esquecer, eu comecei a perder a cabeça, e depois de tanto tempo, decidi puxar a tomada, como você disse...
- Que você o havia condenado? O que ele quis dizer? - "Isso não está me cheirando bem".
- Não sei, ele dizia que sua alma não teria descanso...
Apaguei o cigarro na cadeira e me levantei, olhei para ele e disse:
- Entendo, bom, o que quer que seu tio apareça para lhe dizer, não ouça, ao invés disso reze até que ele se vá, Deus vai te proteger, se você não morreu quando tentou o suicídio, é porque Deus ainda tem um objetivo para você. - Dei meu melhor sorriso de aeromoça.
Enquanto caminhava pela avenida procurando um táxi comecei a pensar. Deus não está nem aí para aquele imbecil, na verdade, Ele não está nem aí pra nada, o suicídio deu errado por que ele errou a quantidadede pílulas, e não porque alguém lá em cima gosta dele, mas ele não precisa saber disso, na verdade... acho que ninguém precisaria saber disso... incluindo eu mesmo.
- Táxi!
Subo no táxi e dou as coordenadas, acho que sei do que se trata, mas nunca se sabe, melhor conferir com um expert no ramo de mortes e descanso eterno, depois eu volto e vejo se o rapaz ainda está em um pedaço só...

A chuva piorou, já faz três dias que ela cai e para, cai e para, mas não dá um trégua decente. Aperto o sobretudo contra o corpo, saio do táxi e caminho até a igreja.
Entro na igreja, acendo um cigarro e dou um longo gole na garrafa de bolso, acho que esse é o único amigo que está sempre comigo, o bom e velho Johnnie, caminho pela nave quando o padre me ve e vem até mim.
- Fumando e bebendo em plena casa de Deus, Jack! - ele faz um gesto apontando o imenso cucifixo atrás do altar.
- Eu perguntei, ele não se importa. - respondo dando de ombros.
- O que você quer saber, Russel? - ele pergunta balançando a cabeça negativamente.
- Engraçado você achar que venho aqui por que quero alguma coisa.
- Você sempre quer alguma coisa, Jack, então o que é. - ele diz em tom acusador, me olhando com o olhar cansado.
- É isso, você não ganha mais cartão de natal. - "como se eu mandasse algum... ou recebesse." - Mas já que você mencionou, tem uma coisinha sim.
Eu conto pra ele o que o quase suicida me contou, quando termino o padre está boquiaberto.
- E então? - pergunto.
- E-eu não sei o que dizer, isso parece com a idéia que você teve mesmo, realmente tudo se encaixa, não consigo pensar numa teoria melhor que a sua.
- E como eu resolvo isso?
Ele olha para baixo, depois para cima, depois pra mim, algo me diz que não vou gostar da resposta.
- Acho que você deve fazer o que não foi feito direito, acho que se você fizer isso, pode dar certo, talvez...
- Talvez? É isso que você tem pra mim padre? Um "talvez"?
- É melhor do que nada, Jack. - ele sorri desconcertado. - Vou dar uma pesquisada e prometo que te ligo com informações melhores.
- Certo. - digo me virando para ir embora.
- Antes de ir Jack, não gostaria de doar algo para os menos afortunados? - o padre pergunta indicando uma pequena caixa ao lado da porta.
- Claro padre. - sorrio - Aqui está. - jogo quatro cigarros dentro da caixa.
- Cigarros, Jack!!!???
- É melhor do que nada padre. - me viro e vou embora pela porta sorrindo, nunca vi um padre xingar tanto assim.

Bom, táxi de volta pra casa e ainda não avancei nem da primeira base, espero que a bola rebatida demore pra voltar, porque essa merda parece complicada, se eles mantivessem registros desse tipo de coisa, ficaria mais facil, mas acho que vou ter que fazer do jeito antigo... Perguntando por aí...

- O-o-o o que quer, Russel? - o homem pequenino e careca, de olhos injetados e pele clara me olha tremendo dos pés à cabeça, não o culpo, nossos encontros não costumam ser dos mais amigáveis, pego ele pelo colarinho da jaqueta e digo com um sorriso:
- Relaxe Axyl, só quero conversar, não vai nem me oferecer uma cadeira?
Sorrio de novo enquanto ele corre alvoroçado pela espelunca que ele chama de loja, procurando uma cadeira, quando ele finalmente encontra uma, me sento e acendo um cigarro enquanto ele me olha inquisitivo.
- Por que você veio aqui? Estou tentando cuidar de um negócio, Russel. - ele faz um gesto abrangendo a pequena loja.
- O lícito ou o ilícito, Axyl? - pergunto sem olhá-lo. - Certo, vou falar de uma vez, quero informações, e você é o bastardozinho mais escorregadio que eu conheço, então vim falar com você.
- E o que eu ganho nisso? - ele aparentemente já perdeu o medo. Demônios são seres imprestáveis mesmo, mas é só empurrar um pouco.
- Ora, está bem. - dou de ombros - aqui, pegue. - estendo-lhe uma folha de pergaminho, com uma escrita ininteligível.
- Um pergaminho, Russel? Suas ofertas já foram melhores.
- Crise econômica, meu amigo, e se você lesse com atenção, perceberia que é uma página de um grimório.
- Jack, isso é sério?
- Sérissimo, meu amigo infernal, é só me dar as informações e isso é seu.
- E o que você quer saber? - ele se sentou, com os olhos mostrando um ávido interesse.
Tiro uma lista de nomes do bolso do sobretudo, e jogo para ele.
- Quero saber quem foi o padre que executou a extrema unção nessas pessoas, e preciso saber disso o mais rápido possível.
- Certo, isso não vai ser difícil...
Me levanto e vou caminhando até a porta, quando escuto:
- Fantasmas do passado, Russel?
Mostro o dedo médio sem me virar e digo:
- Vá para o inferno, Axyl. - e saio pela porta, é hora de correr algumas bases e tentar uma nova rebatida.

sexta-feira, 25 de dezembro de 2009

Irmãos de Sangue - Capítulo 3 - Sobre Lobos e Homens

A fogueira crepitava, envolvendo os três homens numa nuvem de calor que lutava bravamente contra o frio enregelante do deserto a volta deles, Johnny Goode alimentava as chamas e as cutucava com um galho longo, até que, dando-se por satisfeito, pegou o violão e começou a dedilhar uma música sobre a saudade da casa e o cansaço da viagem.
- Sabe, - comentou Jack Donelly - essa música nos traduz bem, exceto por uma coisa.
- É... - concordou Scott Callahan - não temos casa, o cansaço da viagem vai ser eternamente nosso companheiro.
- Desperados. - riu Johnny Goode - Eternamente desperados.
- Pra onde vamos daqui? - perguntou Scott
- Sacramento fica a mais meio dia de viajem, devemos partir quando o sol nascer e chegaremos lá por volta de meio-dia. - Jack explicou.
- E chegando lá? - Scott continuou
- Procurar nos saloons, perguntar nos becos, esse tipo de lugar, conseguindo uma indicação, o resto fica fácil. - Johnny falou com experiência. - E já que estamos aqui, que tal nos apresentarmos decentemente? Cada um conta sua história, de como chegou até aqui, e depois passa pro outro.
- Eu vou começar então. - disse Scott. - Vinte e quatro anos atrás eu vim da Escócia com meus pais, Bobby, meu irmão, nasceu na América, quando eu tinha oito anos meu pai aceitou uma proposta para integrar uma das caravanas de pioneiros que viriam para o oeste e nós viemos, aprendi a atirar com um senhor da caravana, chegamos ao Novo México e nos fixamos em um pequeno povoado, meu pai comprou uma briga com o grande fazendeiro local e foi morto, com treze anos vi meu pai morrer e matei dois dos assassinos com a arma do meu pai. - Ele tirou seu revólver do coldre que trazia na parte de trás do cinto e o olhou com carinho. - Minha mãe morreu quando nossa casa pegou fogo, eu tinha quinze anos na época, e foi uma vela que caiu na cortina, eu e meu irmão fomos pro orfanato, mas ele saiu logo em seguida, indo viver nas ruas. Eu aprendi o ofício de reverendo e depois entrei para a igreja.

O silêncio reinou por um tempo, até que Jack pigarreou.
- Bom acho que é minha vez. - Tirou o baralho do bolso e começou a embaralhar as cartas. - Sou filho de irlandeses, mas já nasci na América, no oeste mesmo, e desde pequeno cresci sabendo atirar, meu avô me criou e me ensinou desde pivete, ele era o velho xerife de uma cidade, quando cresci, me casei logo, e no primeiro ano de casado tivemos a Felicity, eu a amava, e amava sua mãe mais do que tudo. eu ganhava a vida como fazendeiro num rancho afastado da cidade, numa noite, nós ouvimos as vacas assustadas no pasto e saimos para olhar, no escuro eu me perdi da minha mulher, e depois de vagar um tempo pelo pasto eu a encontrei sendo dilacerada viva pelos lobos, matei todos com o revólver, recolhi minha esposa e no outro dia eu e Felicity a enterramos no rancho, depois daquilo eu desandei, comecei a beber e me vicei em jogo, perdi o rancho, mas eventualmente fiquei bom o suficiente em pôquer para viver disso, e vivia viajando com Felicity, pagando nossa vida com o dinheiro do jogo, até que... - Sua voz foi sumindo graudalmente até morrer.

Johnny Goode mexia o fogo em silencio com um galho longo, e a madeira seca estalava com o calor, então sorriu e disse:
- É, essa é a coisa engraçada sobre lobos e homens...
Voltou a ficar em silêncio, depois pigarreou e voltou a falar:
- Eu não tenho uma história cheia de reviravoltas, cresci com meu pai, um caixeiro andante viúvo, que me ensinou a atirar e a tocar violão, quando fiz quatorze anos economizei para comprar um violão, mas acabei comprando um rifle para ajudar meu pai no seu trabalho, no ano seguinte ele caiu doente e morreu, tomei seu violão e passei a viver como músico itinerante, ironicamente, até hoje sou melhor atirador que cantor, com dezessete anos toquei num saloon onde conheci Mary, me apaixonei por ela e nós acabamos nos casando, a voz dela era linda, e ela cantava as músicas enquanto eu acompanhava no violão, num dos saloons, durante um tiroteio eu acabei matando um amigo do nosso colega fujão e fiquei jurado de vingança, então em outra cidade, enquanto dormíamos ela foi ver quem batia na porta e acabou levando os tiros que eram pra mim, e depois disso tenho usado a desculpa de músico itinerante para caçar o desgraçado.

O silêncio reinou de novo, uivos foram ouvidos, perto da borda do círculo que a luz do fogo fazia, os três se colocaram de pé rápidamente, ficando de costas um pro outro, Jack pegou seu revólver e tirou três balas, distribuindo aleatoriamente as três balas restantes pelas seis câmaras , então engatilhou a arma e girou o tambor.
- Que merda é essa? - Perguntou Scott.
- Só uma aposta, quem tem mais sorte, nós ou os lobos. - Riu Jack.

Os lobos surgiram na luz e se lançaram contra os três homens, os dois primeiros caíram assim que saíram da escuridão, com dois disparos de Johnny, os outros seis se dividiram em trios e correrram contra Scott e Jack, Scott tirou os seus três de circulação com três disparos rápidos, e Jack ria a cada estrondo que anunciava que a câmara da sua arma estava carregada, logo os oito lobos jaziam no chão.
- Parece que ainda tenho jeito com apostas. - Riu Jack.
Com um rosnado feroz, um nono lobo saltou contra as costas de Jack, vindo de algum lugar onde nenhum deles havia visto, Jack se virou sabendo que não ia fazer diferença, suas três balas já haviam sido disparadas, colocou seu braço protegendo seu pescoço por mero reflexo, e quando sentiu a mandíbula do lobo acima do seu punho fechou os olhos e esperou pela mordida.
Um disparo ecoou na noite fria e o lobo foi jogado violentamente para longe, Scott estava ao lado de Jack, com o braço estendido e o cano do revólver fumegando e soltando fumaça, Scott guardou o revólver e se virou murmurando:
- Esse filho da puta ainda vai nos matar com essa compulsão por apostas...
Johnny contemplava todos os lobos mortos a volta deles e riu de novo.
- Essa é a coisa engraçada sobre lobos e homens, os dois só param de matar quando nós os matamos... Não sei como, mas isso deve ser engraçado para alguém.
E olhando para cima com um sorriso irônico, foi dormir.

sábado, 19 de dezembro de 2009

Irmãos de Sangue - Capítulo 2 - E justiça para todos.

Scott Callahan atravessou a rua de terra batida cumprimentando cordialmente todos que via, os homens paravem e lhe erguiam os chapéus, e as mulheres curvavam a cabeça, Scott sorriu e abriu a porta do sallon, fazendo o barulho lá de dentro saltar para a rua e em seguida entrou e fechou a porta, selando o barulho.
Do lado de dentro, música e um vozerio disputavam espaço no ar abafado, garçonetes circulavam levando apalpadas indevidas, em um canto, homens jogavam pôquer e se acusavam de trapacear, sentado no balcão, um jovem tocava um violão animado, e cantarolava uma canção sobre um homem cuja mulher o deixara, na parte mais afastada do lugar, um homem sombrio bebia whisky direto da garrafa, parando de vez em quando para olhar em volta.
O barman viu Scott entrar e disse:
- Oh, reverendo, bem vindo de novo, Bobby está esperando-o na mesma mesa de sempre, e como andam os negócios?
- Bem, outra alma se arrependeu hoje. - Disse Scott sorrindo.
- Hahahaha, só o senhor, reverendo, - Riu o músico - pode propor um brinde? - Disse jogando uma garrafa de whisky para o reverendo e erguendo sua caneca de cerveja.
- Vamos ver... - começou Scott sem jeito - Alegria e paz para as famílias, prosperidade para os negócios, fartura para as pessoas e... e...
- E justiça para todos! - Ajudou o músico com ironia.
O saloon explodiu em risadas depois de ouvir aquilo, e o reverendo concordou, entre os risos.
- E justiça para todos. - E todos beberam
Aquilo era tudo uma piada, todos ali sabiam muito bem que a única justiça que se podia conseguir no Novo México naquela época era a que era feita com revólveres e carabinas, e essa justiça nunca chegava para todos, mas mesmo assim todos riram.

Numa das mesas de poquêr, Jack Donelly riu de novo quando percebeu o embaraço do reverendo.
- Eu gosto desse cara, só mesmo um reverendo para matar e parecer tão inocente mesmo assim. - Em seguida se virou para o homen a sua frente e disse - Vou cobrir sua aposta, e aumentar em 50 dólares.
O homem engoliu em seco e murmurou:
- Então eu vou pagar pra ver - E jogou 50 dólares na pilha que estava entre os dois.
- Muito bem, - sorriu jack Donelly - mostre as cartas.
- Flush. - disse o adversário mostrando cinco cartas da mesma cor.
- Uau. - Jack Donelly soltou um assobio, e colocou suas cartas na mesa, mostrando dois pares.
O outro homem sorriu e estendeu a mão para o dinheiro, mas a mão de Jack Donelly se estendeu e parou a sua.
- Que merda você está fazendo? - perguntou o homem
- Desculpe, - Jack sorriu - uma carta ficou presa na outra. - E dizendo isso puxou uma quinta carta debaixo de outra, formando uma trinca e um par. - Full house, então acho que isso é meu. - E deu uma piscadela para o seu adversário atônito.
- Você devia parar de fazer isso! - Disse uma garotinha ao lado de Jack.
- Ora, mas a cara de surpresa deles vale mais que o dinheiro. - disse Jack sorrindo - E é esse dinheiro que vai nos dar sustento até a próxima vez que precisarmos.
- Mas apostar é um jeito muito arriscado de viver, não acha? - A garota continuou.
- Se não tivesse risco não teria graça, Felicity. - Jack falou, como se aquilo fosse óbvio.
- Pai, como você é imaturo. - disse Felicity se levantandoe indo em direção a porta. - Vou rezar por mamãe, hoje é aniversário dela, está bem?
- Tudo bem querida, mais tarde eu irei até lá. - Jack deu um gole em seu copo de whisky e começou a juntar o dinheiro.

O barman se virou para o músico, e disse:
- Como disse que se chamava mesmo rapaz?
- Não disse, - Sorriu o músico - mas pode me chamar de Johnny Goode, nome artístico de John Brandon Goode. - estendeu a mão.
- E o que faz por aqui, Johnny Goode? - Perguntou o barman, apertando a mão que lhe fora estendida.
- O mesmo que o seu amigo apostador ali ou o senhor depressão sentado no canto escuro do saloon. - Riu Johnny. - Viajo, sem saber pra onde, sem saber por que, simplesmente viajo.
- Bom, enquanto estiver aqui, se animar meu saloon com sua música, terá comida de graça, Mr. Goode.
- Bom saber senhor, então vou começar agora. - E dizendo isso, pôs-se a tocar uma musica que falava sobre encruzilhadas.

- Hey bobby, como vai? - Disse Scott, sorrindo, ao se sentar na mesa.
- Scott, bem bem, e você mano? - Disse Bobby, com sua voz fraca e sumida, encolhido numa cadeira.
- Precisa de algo de novo? - Scott olhava com pena seu irmão, Bobby era frágil e covarde e vivia pedindo favores a Scott, sempre confusões em que ele se metia e não conseguia sair sozinho, mas apesar disso, Bobby era seu irmão, e Scott gostava dele.
- Bom, sabe como é, preciso de algum dinheiro, andei perdendo no pôquer de novo... - Bobby disse com um olhar furtivo para o irmão.
- De novo Bobby? Já lhe disse para parar de apostar, merda, por que não tenta arranjar um bom emprego pra variar?
- Hey, não é minha culpa Scott, eles devem ter me trapaceado, deve ser isso. - Bobby o olhou suplicante. - Vai me emprestar o dinheiro?
- Desculpe Bobby, não vai dar, está na hora de você consertar as bagunças que faz. - Disse Scott suspirando. - Vou falar com seus credores, que quando você tiver dinheiro você irá pagá-los, e você vai procurar um emprego.
- O quê??! Um emprego, grande ajuda a sua irmão! - E dizendo isso, Bobby se levantou e saiu pela porta.

O homem que ficara bebendo no canto se levantou, tirou uma nota de 10 dólares do bolso e entregou ao barman, e foi em direção à porta, lá chegando, abriu-a e deixou a jovem Felicity Donelly passar, Bobby Callahan se atirou pela porta aberta antes do homem poder sair, em seguida o homem saiu fechando a porta, e o burburinho do saloon continuou.
De repente tiros foram ouvidos, todos silenciaram, e Jack Donelly e Scott Callahan correram para fora, seguidos pelo músico.
Ao abrir a porta, encontraram Bobby Callahan e Felicity Donelly crivados de balas, já mortos, e um cavalo faltando, do homem que saira junto com eles não havia nem sinal.
- Por quê, por quê Felicity? No mesmo dia que sua mãe! Por que não fui eu? - Jack Donelly perguntava aos prantos.
Scott Callahan olhava o corpo de seu irmão sem saber o que fazer, não conseguia chorar, não conseguia ficar com raiva, sentia como se olhasse toda a cena de fora de seu corpo.
O músico se aproximou deles e disse:
- Eu sei quem fez isso.
Ambos se viraram para ele, e foi Scott Callahan que falou, mas sua voz soava distante, como se viesse de muito longe.
- Quem?
- O homem que saiu com eles. - Disse Johnny Goode. - Ele é um dos Quatro Cavaleiros, quando foi pagar o barman eu vi a marca feita a ferro no seu antebraço. Ele deve tê-los matado e fugiu em seguida.
- Mas porque? - Perguntou Jack Donelly, que segurava a cabeça da filha no colo.
- Isso nós só saberemos depois de pegá-lo, arrancar dele as respostas e em seguida matá-lo.
Ambos assentiram e se viraram para pegar cavalos. Então Jack se virou e disse:
- Como assim nós?
- Estou caçando esse bastardo a meses, obviamente vou com vocês. - Disse Johnny Goode. - Ele matou minha esposa. - Explicou.
- Mas você sabe usar um revólver? - Perguntou Scott.
- Revólver? Não. - Sorriu Johnny Goode. - Minha arma é o rifle. - E Dizendo isso, puxou um rifle de cano longo de um estojo que ficava embaixo do estojo de seu violão.
Os dois concordaram, Johnny foi até um terceiro cavalo, ao lado dos dois, os três montaram e cavalgaram até a entrada da cidade.

Os três se viraram para olhar a cidade, então Jack disse:
- Por vingança.
- E retribuição. - Continuou Johnny Goode.
- E justiça para todos. - Ironizou Scott

E dizendo isso, os três se viraram e sumiram na poeira do deserto.

Irmãos de Sangue - Capítulo 1 - Meu amigo da tristeza.

O sol a pino queimava o pescoço do viajante enquanto ele andava pela areia vermelha e seca, o vento levantava nuvens daquela areia que ardiam seus olhos e o fazia perder o rumo de tempos em tempos; O suor porejava da testa, das axilas, do pescoço, das costas, da virilha, os passos penosos no deserto podiam ser ouvidos a léguas; Até que ele levantou sua cabeça e viu à frente uma cidade, tomado de nova energia, respirou fundo e foi em direção a ela.
Chegou ao limiar do povoado meia hora mais tarde, amaldiçoando o tiroteio que tirara a vida de seu cavalo e sua falta de sorte em ficar sem transporte tão longe da civilização, quando passou pelo saloon viu um retrato seu afixado na parede, conteve o riso e seguiu em frente, ainda não era hora daquilo, poderia beber muito mais tarde, pensando nisso entrou na igreja.
Ao entrar na construção de madeira alta e larga, até mesmo ele se sentiu pressionado por uma atmosfera solene, e tirando o chapéu e as armas, se encaminhou ao confessionário e se pôs de joelhos.
- Perdoe-me reverendo, pois eu pequei. - disse de cabeça baixa.
- O que fizeste, meu filho?
- Matei homens, roubei, estuprei, sequestrei, torturei, causei dor e sofrimento a muitas pessoas.
- E se arrepende?
- Sim reverendo, me arrependo.
- Qual seu nome meu filho? - apesar do tom mais sábio e sério, a voz aparentava a mesma idade dele.
- Red Fox John, reverendo.
- E quer que te absolva de teus pecados, Red Fox John?
- Sim reverendo, por favor - disse Red Fox John baixando mais a cabeça.
O clique foi ouvido por toda a igreja, ecoando como se o lugar estivesse vazio, Red Fox John levantou os olhos e viu um cano prateado e fino passando através da grade de madeira do confessionário e apontando diretamente para sua testa.
- Está perdoado, Red Fox John.
O estampido baixo e abafado foi ouvido, depois o barulho de algo caindo pesadamente no chão e em seguida a porta do confessionário se abriu.
Um joven de aproximadamente vinte e oito anos saiu, usava a batina e escondia nas costas algo que soltava uma fina serpente de fumaça branca, tinha cabelos ruivos, olhos verdes e pele muito branca e usava um grande crucifixo de prata no pescoço, ele caminhou tranquilamente para a nave da igreja passando por cima do corpo do bandoleiro, e chamou dois empregados da igreja dizendo:
- Façam como sempre sim? Entreguem o senhor Red Fox John para as autoridades e peguem a recompensa, metade vai para a igreja e metade para a comunidade.
- Sim senhor, reverendo Callahan.
Dizendo isso, Scott Callahan se encaminhou para a porta e saiu para a rua de terra batida.